Humanidades,
literatura e estudos literários
Antônio
Henrique Gouveia[1]
Renato
Suttana[2]
No
último meio século, parece que, de fato, o mundo mudou mais que em vinte
séculos. É um exagero que pode ser compreendido através de pequenas provas.
Nosso maior dicionário traz uma dessas provas. O significado do termo
Humanidades que ainda se pode encontrar no Dicionário Aurélio[3]
reza que elas sejam “o estudo das letras clássicas”. Hoje estamos querendo que a
palavra signifique o conjunto dos saberes ligados, ou delas derivados, às
disciplinas que estudam e trabalham o conteúdo que as ciências humanas e sociais
retiram do saber humano e que aprisionaram em seus métodos e teorias. Foi um
avanço, mas queremos continuar avançando, tirando da memória o que pode nos
auxiliar na confecção do melhor futuro.
Para
tanto dispomos agora de melhores condições. A assunção da tecnocracia nos anos
50, que elegeu o humanismo como seu principal inimigo e vice-versa, atingiu em
cheio as humanidades, que eram frágeis para suportar o que estava acontecendo.
Vejamos isso através dos acontecimentos no Brasil.
O
filósofo Sérgio Paulo Rouanet fez, em meados dos anos 80, uma análise do que
aconteceu no Brasil desde a entrada nos anos 50 até aquela data, à qual
intitulou “Reinventando as humanidades”.[4]
Nos
anos 50 surgiu uma geração que, em todos os setores da vida nacional, tentou
empreender um projeto de modernização do Brasil, que então se via como
“formalista, cartorial, forense, antimoderno”, o que “de algum modo estava
associado ao conceito de ‘humanidades’” (p. 305). A nova geração criou um programa de ação
que realizaria a modernização. Assim, Rouanet verifica que “um dia ocorreu essa
coisa espantosa: um anjo torto ouviu as nossas preces. (...) Da noite para o
dia, o Brasil dos bacharéis transformou-se no Brasil dos tecnocratas” (p.
305-306). E nosso autor conclui: “o país se modernizara. Tudo como queríamos: só
que nossos sonhos, realizados,viraram pesadelos. O país não era mais a pátria
dos bacharéis, mas tinha se convertido na terra-de-ninguém dos zumbis
competentes e dos doutores lobotomizados” (p. 306).
Depois,
o nosso ex-Ministro da Cultura passa em revista as áreas das humanidades: letras
clássicas; português e cultura luso-brasileira; francês e inglês; história;
filosofia e arte.
Na
seqüência, ele – que está propondo a reinvenção das humanidades – indaga: “que
teríamos a ganhar com “a restauração das humanidades”? Para responder, Rouanet
arrola quatro argumentos: 1º) o do contrapeso, 2º) o da versatilidade, 3º) o da
crítica e 4º) o do prazer.
O
primeiro lembra que as humanidades nunca se opuseram à ciência e à técnica, como
aconteceu na Renascença, sua época de ouro, “mas também a de um enorme progresso
científico e tecnológico” (p. 322). Hoje, as humanidades podem servir como
contrapeso à cultura tecnocrática, que veio a ser a força exarcebada de uma
renascença desumanizada.
O
segundo argumento sustenta que “o manejo das humanidades torna o espírito
infinitamente mais versátil”. E defende que num “mundo cada vez mais fragmentado
pela divisão de trabalho, em que cada um de nós conhece cada vez mais sobre cada
vez menos”, a sociedade industrial, que exige a variação das especialidades,
comporta uma especialidade capaz de “transcender as outras especialidades”,
sendo “capaz de estabelecer inter-relações instantâneas entre as várias áreas do
saber”. O domínio desta especialidade transcendente ele pensa que ficaria
garantido com a presença da “figura do generalista competente”, com o que também
concordamos.
O
terceiro argumento refere-se ao fato de que “o cultivo das humanidades pode
contribuir para o hábito do pensamento crítico”. Aqui a argumentação traz uma análise do
que há de probabilístico na cultura, na medida em que ela tanto pode servir a
ideais humanitários democráticos ou pluralistas, quanto aos autoritários ou
totalitários. Porém, no fim, o autor conclui que “tendo adquirido o hábito de
dialogar com idéias e arbitrar entre posições contraditórias, o pensamento se
torna mais apto a desmascarar os sofismas do poder e a resistir às investidas do
obscurantismo” (p. 325).
E
no quarto argumento Rouanet escreve os que estão entre os melhores parágrafos de
toda sua ensaística. Para não selecionar nenhum deles vamos citar o trecho
completo, no qual ele aborda o prazer do convívio nosso com as obras que tocam
de forma mais bela as questões humanas:
Em
quarto lugar, e não menos importante: as humanidades são uma fonte de prazer.
Estamos tão habituados a submeter tudo à lei da utilidade, que mal podemos
conceber a idéia de uma práxis cultural desinteressada, que não sirva para
formar bons cidadãos, bons brasileiros ou bons pais de família. Nosso humanismo,
quando existe, é um pouco envergonhado,e quase nos sentimos constrangidos a
justificar nosso amor por Ovídio dizendo que as Metamorfoses são úteis
para compreender a dialética e nosso amor por Fedro dizendo que as histórias de
animais são úteis para compreender as relações entre os homens. As humanidades
servem para tudo isso, mas, ainda que não servissem para nada, mereceriam ser
cultivadas simplesmente porque nos dão prazer. Esse prazer não é necessariamente
sublime. Pode ser áspero e sensual, violento como o gozo de um fauno, acre como
o suor dos marinheiros de Ulisses, ou ritmado como o balanço dos seus remos.
Podemos ser melancólicos com o Príncipe da Dinamarca, elegíacos com Hölderlin,
iconoclastas como Jarry. Mas podemos recusar todos esses prazeres, e preferir,
com Catulo, o prazer mais intenso de amar Lésbia. “Vivamus, mea Lésbia, atque
amemus,/ rumoresque senum severiorum/ omnes unius aestimemus assis./
Soles
occidere et reddire possunt:/ nobis cum smel occidit brevis lux,/ nox est
perpetua una dormienda./ Da
mi basia mille, deinde centum,/ dein mille altera, dein seunda centum,/ deinde
usque altera mille, deinde centum.”
Vivamos, minha Lésbia, e amemos, pois que resmungos dos velhos rabugentos não
valem um só vintém. Os sóis podem pôr-se e nascer de novo. Quando a luz breve se
extingue, resta-nos a noite, que dormiremos inteira. Dá-me mil beijos, e depois
cem, e depois mais mil, e depois cem novamente, e depois mil mais uma vez.
Fechamos os olhos, com Proust,
e deixamo-nos guiar pela memória involuntária. Ouvimos o riso das “jeunes
filles em fleurs” e os sinos de Martinville. Balbec ressurge, imemorial, e
toda uma vida, e uma época inteira. O museu imaginário de todos os séculos está
à nossa disposição: foi para nós que Rafael e Kandisnki pintaram suas telas
perfeitas. E supremo prazer: o tempo nos obedece. O fluxo imobiliza, dócil a
nosso capricho. Somos
eternos, somos imortais. Goethe
teve ainda de implorar para que o instante durasse eternamente: “Verweile doch,
du bist so schön.” No mundo das humanidades, sujeito unicamente ao princípio do
prazer, em que todo desejo é automaticamente real, para o tempo é uma tarefa
simples. Sabemos, graças a Keats, que a beleza será nossa para sempre:
A
thing of beauty is a joy forever;
Pass
into nothingness.[5]
Temos,
assim, uma proposta de retomada do projeto das humanidades em nossa época. Em
seu texto, Rouanet tenta mostrar a validade de trazer de volta esta noção, mas
quer adaptá-la às “condições contemporâneas” que, no seu entender, “devem ser
mais que o simples cultivo do grego e do latim, e menos que uma summa
enciclopédica dos conhecimentos humanos” (p. 309)[6].
Nosso
filósofo vê as humanidades como Bildung (formação), todavia julgamos que
se faz necessário o exame desta noção para que se possa adaptá-la à sociedade
atual de uma forma mais incisiva, considerando que, no momento, seria
extremamente difícil incorporar um tipo de formação que tivesse por base as
áreas de conhecimento das velhas humanidades. Nesta oportunidade em que
cogitamos de realmente contribuir para que as humanidades sejam colocadas sob um
prisma que as fortaleça frente ao avassalador poder técnico-científico, desde já
nos parece interessante contrastar o velho e o novo. O velho tinha a ver com o
que se considerava serem conhecimentos imprescindíveis até o início do último
quartel do século XX. A reabilitação das humanidades, que pretendemos, quer
incorporar os conhecimentos humanos e sociais de tal forma que eles dêem conta
de trabalhar o ser humano como um todo. Pensando nisso, Hans-Georg Gadamer falou
em “multiplicidade do ser humano”[7],
mas nós preferimos ir na direção da pluralidade, revelando a diferença
entre multiplicidade e pluralidade na idéia de uma convivência unificada naquela e de uma
mera convivência nesta, isto com o
argumento de que até podemos unificar a convivência da humanidade um dia, mas
ainda é preciso pensar que não a temos oficializada na presente
data.
A
idéia da pluralidade humana pode e deve nos servir como uma excelente base
introdutória para desenvolver o projeto das humanidades nos dias que correm, com
uma atenção mais detida nas relações que se estabelecem entre nossas atividades
literárias e alguns aspectos da nossa civilização planetária, do ponto de vista
da construção de uma história compartilhada. Nisso, contudo, para conseguir
abordar essas relações, cabe antes nos desvencilharmos dos nossos conflitos
interiores no conjunto que une de
um lado “literatura ou atividades literárias ou fenômenos literários”, e,
do outro lado, “estudos literários ou investigações acadêmicas da literatura”,
que se situam em torno de três esferas, duas externas e uma interna: as externas
– a do status epistemológico e da sua situação sócio-política; a interna
– métodos e teorias críticas profundamente divergentes e superficialmente
convergentes.
Não
será possível abordar esta problemática aqui, afinal nem mesmo uma coleção de
obras poderia aprofundá-la em todas as suas nuances ou esgotá-la em definitivo.
Nem veríamos isso como desejável, na medida em que valorizamos demais o debate
permanente em torno dessas questões que servem para revitalizar o pensamento,
como também modificar a qualidade das nossas ações. No entanto, a seguir vamos
comentar rapidamente seus focos principais[8].
No
que diz respeito ao status epistemológico, parte dos estudos literários
não vê necessidade de discuti-lo; a outra metade ver isso como uma obrigação.
Para nós, uma coisa é certa: este exame se impõe a todas as áreas de
conhecimento que podem ser incluídas nas humanidades, e ele traria uma
pax fundamental para que nossas ações não fossem perturbadas por
conflitos de tendências, de perfil, de missões, de objetivos. Já na questão
sócio-política, houve muitos tumultos entre 1848 e 1989 e várias posições duelam
entre si, mas a maioria delas preserva o valor de uma democracia pluralista
propiciadora de uma liberdade que busque a igualdade em nome da fraternidade.
Por fim, as teorias e metodologias críticas desconhecem o valor do seu objeto
que impõe suas características, desestabilizando suas operações. A conseqüência
e até a causa disso, no caso da literatura, é, por exemplo, um problema
que diz respeito às polêmicas que se armam no seio dos estudos literários
entre uma visão mais ampla e uma mais restrita das atividades literárias. No
último século, solidificou-se a visão mais restrita, a qual pretendeu
circunscrever a literatura à prosa ficcional e à poesia, com alguma atenção aos
textos das peças teatrais, formando assim uma rígida divisão tríplice dos
gêneros literários, mas – e mesmo assim – insatisfatória, uma vez que uma outra
especialidade das humanidades, as artes cênicas, ficou encarregada de estudar o
teatro e todos os seus fenômenos. Contudo, quando pensamos nos elos que unem
humanidades e atividades literárias, não podemos partir de uma visão tão
estreita, porque ao olharmos em retrospectiva não devemos pensar apenas no
século XX. Com efeito, há que fazer um vôo sintético por três mil anos da
convergente civilização planetária. E nessa viagem precisamos abrir a mente ou o
espírito, para relembrar que todas as posturas intelectuais que usaram quaisquer
dos hábitos literários para divulgar idéias, sentimentos, emoções, enfim, com o
intuito de transcender uma situação espaço-temporal, através de textos orais
e/ou escritos, nos interessarão aqui. De mais a mais, colocamos assim em prática
o raciocínio típico das humanidades, no qual qualquer caminho especializado, a
princípio, prejudica a intenção que dirige o olhar ao todo de ser humano.
Por
um lado, pode-se concluir que a especialização na ficcionalidade narrativa e as
tentativas mal fadadas de ficcionalização do lírico e do teatral representam uma
opção que milita contra as humanidades. Ou seja, o ficcionalismo da teoria da
literatura no século XX não passou de uma certa violência contra a própria
literatura, na medida em que restringiu o raio patrimonial do próprio fenômeno
que lhe era fundamental, com a conseqüente renúncia ao lugar extenso que a
literatura ocupava na base da civilização e que, por causa dele, fez com que as
atividades literárias adquirissem esse prestígio exponencial que vem das origens
até o início do século XX.
Por
outro lado, se admitimos que – uma vez reconhecido esse lugar e uma vez sondada
a sua amplitude e profundidade (que esses estudos, como se vê, não podem
focalizar adequadamente, dado o seu ponto de partida restritivo) – os estudos
literários não podem ser resumidos aos lances ficcionais, tidos como fenômenos
essencialmente literários, estamos prontos para um vôo, na velocidade do som,
nas asas de uma gralha azul, no qual a palavra literatura nomeia – muito mais do
que um conjunto de fenômenos que uma ciência específica deve circunscrever – o
próprio idioma do pensamento ou da alma. Esse idioma é aquele que, apenas falado
e ou escrito, comunica tudo aquilo que não é estritamente troca de mensagens
ordinárias no mais comezinho passar das horas e dos dias, e muito menos diz
respeito apenas às mensagens inventadas e reinventadas que seduzem os públicos
desde uma remota praça pública, onde se aglomeraram transeuntes para ouvir um
aedo, até o escuro da sala onde uma luz platinada e intermitente nos indica que
ali se conta outra telenovela.
Há,
portanto, no contexto das humanidades, um conflito entre a literatura, vista
como esse fenômeno coletivo e celebratório do pensamento, da cultura e da
linguagem como totalidades – o qual se tem vivido ao longo dos trinta séculos
que nos separam de Homero –, e a literatura para quem embarcou na nau das
ilusões que tentam mimetizar os êxitos daqueles que somente decifravam as
matemáticas das estrelas e das substâncias. Isto é, há um conflito entre a
literatura vista como parte de nossas experiências mais profundas de linguagem e
de mundo e as ilusões daqueles que quase parecem querer vestir o estudioso das
fainas literárias de um jaleco branco, como se o crítico armado de teorias e
conceitos muitas vezes estéreis devesse ser isolado das impurezas decorrentes de
nos situarmos entre o que nos é o mais íntimo e o mais público. Nessas
impurezas, a literatura ora nos expõe cruelmente, ora nos oculta com a bondade
dos que consolam e amenizam sofrimentos, mas sempre trazendo à tona as dores e
os fastos que servem para medir nossas grandezas e nossas fraquezas. Assim,
gostaríamos de apontar, neste pequeno espaço, para um âmbito de experiências e
lembranças mais amplas, que descreveriam o envolvimento do ser humano de todas
as épocas e de todos os espaços com todos os assuntos, bem ao modo do célebre
“humano sou e nada do que é humano me é estranho”[9]
que, desde Terêncio, bem se pode converter no lema para a perquirição de um
conceito mais amplo de literatura.
É
assustador que as correntes que defendem a especialização na ficcionalidade não
consigam perceber que, fora dos estudos estritamente literários, os parâmetros
ampliados da literatura estão sendo admitidos em vários contextos e idéias, por
diversos autores. Observem este trecho que recolhemos em Félix Guattari, no seu
livro As três ecologias:
O
que quer que seja, parece-me urgente desfazer-se de todas as referências e
metáforas cientistas para forjar novos paradigmas que serão, de preferência, de
inspiração ético-estéticas. Aliás, as melhores cartografias da psique ou, se
quisermos, as melhores psicanálises não foram elas à maneira de Goethe, Proust,
Joyce, Artaud e Beckett, mais do que de Freud, Jung, Lacan? A parte literária na
obra desses últimos constitui, de resto, o que de melhor subsiste (por exemplo,
a Traumdeutung de Freud pode ser
considerada um extraordinário romance moderno!).[10]
Há,
até, uma visão mais inquietante para alguns, conforme podemos detectar em J.
Habermas, quando o texto literário, por sugestões contemporâneas, ganha um
prisma de observação do mundo equivalente ao filosófico e ou
científico:
Ninguém
julga ser inadequado considerar os textos de Freud também como literatura – no
entanto, é preciso perguntar: será que eles são apenas, ou em primeira linha,
literatura? Até há pouco tínhamos uma resposta segura; entrementes,
multiplicam-se as vozes que perguntam em sentido contrário. Será a orientação
através de questões de verdade um critério suficiente para a tradicional
demarcação entre ciência e literatura?[11]
Poucas
atividades contribuíram tanto para formar uma imagem brilhante do ser humano
como o trabalho dos grandes escritores e as suas obras imortais. Num giro pelo
mundo desde as origens, sabemos que Homero, a Ilíada e a Odisséia
nos mostram muito mais o homem grego enquanto presa do destino, cultivador da
razão, guerreiro orgulhoso submetido à pátria e ao Olimpo, numa síntese
simbólica da nossa terra e do nosso céu, do que uma série de artifícios
literários destinados a produzir grandeza de Homero e transformá-lo num autor
que se deve estudar nas escolas e universidade. A chamada cultura ocidental
teria começado, oficialmente, nesse momento, e isto será o início da cultura
mundial. Poucos séculos depois, o teatro de Aristófanes, Sófocles, Eurípedes e
outros colocaria no palco a tragédia e a comédia de ser humano. Até hoje
constatamos o vigor das suas peças, que reaparecem em belos espetáculos por
todos os cantos do mundo.
Os
romanos souberam herdar o legado grego e tinham que organizar o Império com as
colunas firmes de aliavam expansão e sustância, ação e cultura. A literatura,
mais do que nunca, combinou o ideal mais elevado e desinteressado com as
necessidades de formar o cidadão para viver em sociedade, pretensão de que a
poética horaciana vem a ser um emblema.
Quando
os romanos saíram de cena e os bárbaros entraram, houve um tempo que não se fez
documentar mais amplamente por escrito e que durou até que os povos deixassem
assentar a poeira, mas sabemos que enquanto isso a oralidade exerceu um papel
precioso junto com o que deve ter sido uma sublime atmosfera mística. Essa
época, que a falta de imaginação de alguns denomina como obscura, fomenta a
tradição literária popular que continua silenciosamente, enquanto aguarda que os
idiomas europeus se formem e que as universidades apareçam. Então, passando
pelas gestas, pelos romances de cavalaria e pela magnífica floração da poesia
provençal e trovadoresca, surgirá um dia a arte de Dante e Petrarca, abrindo o
séqüito dos poemas grandiosos que atingirá o seu topo na Renascença, com as
criações de Ariosto, Camões e Tasso. Nesse período, pode-se dizer que o ser
humano intensificou as suas relações com Deus, com o Céu, para amenizar o seu
sofrimento, através dos versos, dos diálogos tensos ou frugais, dos enredos nos
quais os heróis venciam os dragões e conquistavam as princesas, enquanto as
mocinhas das aldeias que iam buscar seus cântaros nas fontes cantavam a saudade
do seu amado ausente ou indiferente ao seu santo amor, a esconder um desejo
erótico que era o aguilhão da natureza ávido para continuar a vida. Como a
literatura contribuiu – em todas essas manifestações, seja no colorido medieval,
seja na arte portentosa da Renascença, para dar uma dignidade artística a nossas
exigências mais naturais!
Então,
veio o grande espanhol – que nos criou o valente cavaleiro Quixote e seu sensato
secretário Sancho – Miguel de Cervantes, esse herói mítico da modernidade, que
nos faz rir dos heróis, numa obra que, em vez de exterminar o ridículo ou a
tolice das narrativas, o que fez foi levar a que as estórias se requintassem com
os anti-heróis, ensinando-nos a procurar a beleza verbal para além da fantasia
extrema, das ilusões felizes, bem como a descobrir o valor estético da exposição
das nossas emoções mais íntimas e incontroláveis, num mundo que precisava ser
descrito fielmente, mundo esse que continuou tão árido e inóspito para o ser
humano, mas que as atividades literárias sempre souberam envolver com o tecido
das novas roupagens. Refez-se, assim, constantemente o espetáculo de viver sobre
a Terra, a qual, na verdade, para a literatura, não é senão o nosso constante
palco, aquele em que reapresentamos nossos dramas, em que gargalhamos de novo
com nossas comédias, em que declamamos nossos poemas ou cultivamos a atenção com
nossas estórias.
O
que aconteceu na literatura e com o que a literatura significa para a
civilização desde El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha para cá?
É certo que o texto de Cervantes marca uma espécie de virada de mentalidade na
literatura que se escreveu a partir do século XVII até os nossos dias. No século
XVII as mudanças políticas e as exigências das novas mentalidades levam a que os
escritores se engajem também nos amplos debates de idéias que perpassam o
universo da cultura e das relações entre os homens. É a época em que os
filósofos se fazem ficcionistas e os ficcionistas se tornam filósofos – época em
que a própria memória e a experiência pessoal de vida, como em Rousseau, se
converte no espetáculo de uma vivência que se quer universalizar e atingir os
seus mais amplos limites. Ao século XVIII há de suceder uma época em que esse
desejo de testemunhar, de fazer com que a própria vida individual seja o indício
de uma vivência que persegue os próprios limites, se tornará a regra em todos os
setores da experiência das letras. Será a época do sonho, da fantasia e da
imaginação, inaugurada por Goethe, Wordsworth, Byron, Leopardi ou Gonçalves
Dias, todos eles empenhados em levar as letras para além dos limites dos livros
e dos gabinetes, fazendo-as, como o disse Octavio Paz, entranhar-se na vida e na
história como índice de uma experiência fundamental. Mas não é isso o que a
literatura tem feito desde a sua época mais remota?
A
crítica tem sido unânime em chamar essa época de romântica, da qual a época
moderna herdaria algumas de suas propostas – estéticas, éticas, políticas e
culturais – mais importantes. Mais contemporaneamente, enquanto o conceito de
Humanidades vai se conformando em ser apenas “o estudo das letras clássicas” e
enquanto a crítica e a teoria literárias procuram cada vez mais se centrar na
noção da ficcionalidade, compreendendo-se muito mais como uma tecnologia de
conceitos do que como um campo de saber fundado nessa experiência total da
linguagem, da cultura e do pensamento, a literatura parece atingir culminâncias
com inventores cuja fantasia e cuja profundeza da sondagem psicológica e
existencial parece não ter limites. É a época de Kafka e Proust, Joyce e D. H.
Lawrence, Gadda e Graciliano Ramos, e seus inventores vão desde Valéry a
Fernando Pessoa, desde Conrad a Guimarães Rosa, desde Rilke a Carlos Drummond de
Andrade – mestres das palavras, mas também da experiência, sabendo fazer todos
eles aquilo que o Romantismo se propôs desde o início, que é impedir que o
domínio das letras de coagulasse num campo de saber puramente técnico-teórico de
âmbito restrito, mas que se abrisse para o domínio da cultura e da experiência
como um todo.
Nos
últimos dois séculos, a literatura experimentou seu ápice, após o que começa a
sentir aquilo que deveria ser seu ocaso, já que o cultivo das almas, que ela
facilitava como um eixo concorrente às religiões, viverá uma cisão por décadas
entre as atividades literárias das elites eruditas e as do povo ou massas
urbanas. Para essas elites, a literatura continua sendo o texto celebrado,
canônico, envolvido na aura em torno da qual um T. Adorno ou um H. Bloom
problematizam a passagem das concepções mais restritas às concepções mais
amplas. Quem, contudo, consegue ver além de uma poética estabilizada no valor
das obras e dos autores e se abre a uma estética situada para além da tradição
do elaborado artesanato, descobre que as massas, com todos os recursos técnicos
de que dispõe nos dias que correm, não compactuaria com uma estética que as
abstraísse. Assim, enquanto a teoria da literatura até quis se desvencilhar da
estética, a expressão verbal das pessoas se expandiu para além da poesia, dos
contos, dos romances, nos obrigando a retomar as velhas poéticas de destino
gráfico – concentradas em torno de uma beleza delimitada previamente – em
poéticas estilhaçadas, revelando belos imprevistos e breves, às quais as
Humanidades não podem ser mais indiferentes. As Humanidades atualizadas devem
abrigar também este ser humano contemporâneo para quem a erudição vertical não é
mais uma prioridade do espírito. Virou passado o tempo em que sonhávamos com a
eternidade, pois que a vida se extinguia num sopro desamparado, batida pelas
guerras e pelas doenças. A esses problemas vieram se acrescentar outros, e o ser
humano desesperançado, absolutamente cônscio de sua imortal fragilidade, não
sonha mais com a vida que não seja aquela para ser vivida enquanto se respira. É
certo que isso não favorece ao cultivo das tradições, contudo é já uma tradição
que nasce...
.
[1]
Professor do Delet, Unicentro, Guarapuava, endereço:
pluridata@hotmail.com
[2]
Professor do Delet, Unicentro, Guarapuava, endereço: dedalus182000@yahoo.com.br
[3]
HOLANDA, Aurélio Buarque de.
Novo dicionário da língua portuguesa, 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1986. 1838 p., p.
908.
[4] ROUANET, Sérgio Paulo. [1986] Reinventando as humanidades. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 349 p, pp. 304-330.
[5] ROUANET, Sérgio Paulo, op. cit., pp. 326-327.
[6] Entre esse mais e esse
menos, S.P. Rouanet define com precisão: “Proponho chamar de humanidades
as disciplinas que contribuam para a formação (Bildung) do homem,
independentemente de qualquer finalidade utilitária imediata, isto é, que não
tenham necessariamete como objetivo transmitir um saber científico ou uma
conseqüência prática, mas estruturar uma personalidade segundo uma certa
paidea, vale dizer, um ideal civilizatório e uma normatividade inscrita
na tradição, ou simplesmente proporcionar um prazer lúdico.” (p.
309)
[7]
Esta expressão se encontra no final do seguinte trecho: “Não é mais ciência
aquilo que escolhe por objeto de sua pesquisa o próprio homem; esta ciência tem
antes como objeto o conhecimento que o homem tem de si, conhecimento esse
transmitido por tradição histórica e cultural. Na Alemanha, devido ao sentido da
tradição romântica, isto se denomina “ciências filosóficas”. Mais claras são as
expressões de outras línguas como “humanities” e “lettres” – “letras” ou
“humanidades” –, contanto que a diferença na maneira de apresentação das
experiências encontradas aqui e ali também se expressem por palavras. Os métodos
da investigação científica são fundamentalmente os mesmos nestas ciências como
em quaisquer outras, mas o seu objetivo é diferente: por um lado, o humano, que
se declara de maneira objetiva nas criações culturais da humanidade, como
Economia, Direito, linguagem, arte e religião, e, por outro, o conhecimento
sobre o homem, que se encontra expresso nos textos e nos testemunhos orais. O
conhecimento assim transmitido não é do tipo e da ordem das ciências naturais, e
tampouco é uma simples continuação além dos limites dos conhecimentos das
ciências naturais. Assim, o naturalista que sente a falta da exatidão que lhe é
própria pode imaginar indevidamente que as “humanities” sejam “conhecimento
inexato”. Na verdade, trata-se de outra classe de ensino que recebemos através
das “humanidades”. Trata-se aqui da imensa diversidade do humano em uma vasta
amplitude. A velha diferenciação teórico-científica entre explicação e
compreensão, ou entre método nomotético ou idiográfico não é suficiente para
avaliar a base metodológica de uma Antropologia. Pois, o que se exprime em um
detalhe concreto, pertencendo ao conhecimento histórico, não interessa como
detalhe, mas como “o humano”, embora possa aparecer nos fatos individuais. Tudo
que é humano não significa somente o humano em geral, no sentido da
peculiaridade típica do homem em face de outras formas vivas, especialmente dos
animais, mas abrange o total da multiplicidade do ser humano.” (GADAMER,
Hans-Georg. Teoria, técnica, prática – a
tarefa de uma nova Antropologia, in Nova antropologia. Orgs. Paul Vogler e Hans-Georg
Gadamer. São Paulo: EPU,
Edusp, 1977. 7 v., v. 1, pp.
1-19)
[8] As questões presentes no
parágrafo a seguir já foram abordadas, entre outros, pelos seguintes trabalhos:
a) para epistemologia: Eduardo Prado Coelho, Os universos da crítica –
paradigmas dos estudos literários. Lisboa: Edições 70, 1982. 561 p.; Eduardo
Portella, Fundamentos da investigação literária. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileira; Fortaleza: UFC, 1981. 172 p.; b) para a questão sociopolítica: Terry
Eagleton, A função da crítica. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 122 p.;
c) para métodos e teorias críticas: Renato Suttana, “Adeus à crítica literária”,
Revista Letras, Curitiba, n. 69, p. 53-74, maio/ago., 2006, Editora UFPr;
para as três problemáticas: Antônio Henrique Gouveia, Superação dos impasses
filosóficos e científicos no rumo civilizador (http:// pluridata.
sites.uol.com.br/2p/si/1.htm) e “Letras morreu, viva Letras!”, Ideação,
Cascavel, n. 1, p. 51-103, 1998, Edunioeste.
[9] Publius Terentius Afer (185
a 159 a. C.), Heautontimorumenos
[10] GUATTARI, Felix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 2005. 56 p., p.
18.
[11] HABERMAS, Jürgen. Filosofia e ciência como
literatura? Pensamento
pós-metafísico. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.
271
p., pp. 235-255, p. 235-236.